A Montanha-Russa De Mariah Carey

Depois de passar por anos de altos e baixos, a cantora dá a volta por cima e promete recuperar o trono e o status que a colocaram entre os maiores nomes da música dos anos 90.

Raca (BR) March 2006. Text by Marcelo Wysocki.

Nova York, 1990. Era um dia como outro qualquer na cidade — até que muita gente foi pega de surpresa ao ligar a televisão e se deparar com uma jovem entoando versos amorosos arrancados com fervor da profundeza da alma, no embalo de ritmos e influências como a soul music, o rhythm & blues e uma forte dose de pop. A música se chamava “Vision Of Love”. Mas quem era ela? Mariah Carey, muito prazer. Era a realização de um conto de fadas na vida de uma menina mestiça, de raízes negra, irlandesa e venezuelana e marcada por uma infância difícil. E como é comum nas fábulas que embalam os sonhos mais secretos das pessoas de todo o mundo, Mariah protagoniza uma aventura e tanto. Naquele dia de junho, a população da cosmopolita selva de pedras curvou-se para reverenciar a garota de vinte e poucos anos, de voz cristalina, rosto angelical e dona de um carisma invejável. Foi a consagração.

De lá para cá, a vida de Mariah converteu-se numa montanha-russa alucinante tanto nas subidas quanto nas descidas. Ela bateu recordes e mais recordes de vendas com seus álbuns, conquistou inúmeros prêmios, teve um casamento de princesa com Tommy Mottola — que segundo relatos da época custou meio milhão de dólares e contou com convidados como Bruce Springsteen, Barbra Streisand, Robert DeNiro, Gloria Estefan, Michael Bolton e Ozzy Osbourne — e enfrentou uma terrível crise de depressão. A descida da montanha-russa começou no dia do lançamento do álbum Glitter, precisamente em 11 de setembro de 2001 — coincidentemente o mesmo dia em que terroristas a mando de Osama Bin Laden implodiram as torres gêmeas do World Trade Center. O que era para ser um dia festivo transformou-se rapidamente num pesadelo.

O tempo passou e Mariah soube dar a volta por cima. Espantou toda e qualquer situação desconfortável fazendo o que sempre quis na vida: cantar. Assim, ela gravou no ano passado The Emancipation Of Mimi, álbum que a coloca outra vez em evidência, como na década passada, período em que ganhou o status de diva. &ldash;Já renasci de várias maneiras e penso que aquilo que mudei na minha vida foram as minhas prioridades e a minha relação com Deus,” declarou à Cosmo Girl Magazine. “Sinto que tive duas, três, quatro oportunidades,” agradece ela. “É pela vontade de Deus que ainda estou aqui.”

Ela não agradece apenas aos céus pela recuperação. Outro pilar que sustentou Mariah para recuperar o tempo perdido certamente veio de Patricia Carey, sua mãe. Isso porque Patricia passou por maus bocados na vida, além de ser a maior incentivadora da filha para seguir na carreira artística.

Mariah não chegou a conhecer o pai — que morreu antes de seu nascimento —, teve uma rígida educação católica e, ainda criança, descobriu o talento para a música. Partiu, então, para Nova York logo que as aulas do colegial terminaram e em pouco tempo começou a trabalhar na New York City Opera. Foi nesse período que Patricia conheceu Alfred Roy Carey, negro de ascendência venezuelana, com quem se casou pouco tempo depois. Na época, a família da noiva não aprovou a união. E quando o casamento chegou ao fim, Patricia teve que se desdobrar para sustentar os três filhos, Mariah, Morgan e Alison. Fez de tudo um pouco: trabalhou como cantora de ópera, de jazz, professora de canto e gerente de um pet-shop. A futura estrela tinha apenas 3 anos quando os pais se separaram. Sem dúvida, as diversas situações vividas pela mãe impulsionaram Mariah nesse período de dificuldade. “As vezes ela era a mãe e às vezes eu era,” costuma dizer a cantora.

Hoje, aos 35 anos, Mariah é só alegria. “Pela primeira vez em minha vida, estou orgulhosa e não tenho medo de ser quem realmente sou,” afirma. Era tudo o que queriam seus incontáveis fãs — alvos de constantes elogios de Mariah, que nunca se esquece do carinho e do apoio recebido nos dias difíceis. “Sinto um amor incondicional pelos meus fãs de uma maneira que não sinto em todo o resto da minha vida,” garante. Segundo a cantora, The Emancipation Of Mimi (A emancipação de Mimi) é um convite para seus admiradores entrarem em sua vida. “Assim como MC, Mimi é um apelido usado pelos amigos e pessoas mais íntimas,” explica. “Estou abraçando minha independência e celebrando a pessoa que me tornei,” diz a cantora.

Para a felicidade geral dessa incontável legião de seguidores, este ano promete ser dominado por Mariah Carey. Por quê? A resposta é simples. Primeiro, porque seu novo trabalho já bateu a marca de sete milhões de cópias vendidas desde o lançamento — um número sem dúvida respeitável, que soma-se aos 150 milhões conquistados com os outros dez álbuns ao longo de sua carreira. Depois, veio uma passagem de ano consagradora, em plena Times Square, na badalada região da Broadway, no coração de Nova York, cantando para mais de um milhão de pessoas.

Como se não bastasse, o mês de fevereiro chegou para Mariah de forma especial. Ela foi uma das principais atrações do Grammy Awards, o Oscar da música mundial, a mais importante condecoração da indústria fonográfica. A cantora foi indicada em oito categorias da aguardada premiação, mesmo número de outro seleto grupo de artistas composto pela nova estrela do R&B, John Legend, e pelo rapper Kanye West. Mariah só faturou em três categorias, uma vez que os grandes contemplados da noite foram os irlandeses do grupo U2, que logo na seqüência passou pelo Brasil em shows concorridíssimos. Bono Vox e seus companheiros levaram nada menos que cinco estatuetas, entre eles o de Melhor álbum do ano. A cobiçada categoria incluiu bambas como o ex-Beatle Paul McCartney e Gwen Stefani.

Mesmo assim, a festa rendeu a Mariah prêmios importantes, como o de Melhor álbum de Ramp;B Contemporâneo. “We Belong Together,” música que faz homenagem à clássica “If You Think You're Lonely Now,” de Bobby Womack, e que permaneceu por catorze semanas no topo da parada norte-americana, foi nomeada Melhor canção de R&B. Para fechar com chave-de-ouro, Mariah também foi premiada na categoria Melhor performance vocal feminina.

Nem mesmo as especulações de um conflito entre os organizadores do Grammy e Mariah tirou o brilho da noite. Algumas publicações afirmam que a cantora teria ficado furiosa por terem escolhido Madonna para abrir a festa em vez dela. Os mexericos davam conta de que Mariah queria começar a noitada de gala cantando “We Belong Together,” mas os chefões da organização optaram por Madonna, que teria feito ameaças de não comparecer se a função fosse de Mariah.

A música “We Belong Together” lidera a lista de melhores canções de 2005, de acordo com uma pesquisa realizada pelo canal de música VH1. O Top 40 foi baseado nas vendas, downloads, veiculação nas rádios e também no número de vezes que as canções fizeram parte da parada semanal VH1 Top 20 Video Countdown. O hit superou “Boulevard Of Broken Dreams,&dquo; do Green Day. O fato é que Madonna acabou por cantar a primeira música da noite, mas quem levou os prêmios foi Mariah.

Mariah parece mesmo ter previsto o início da nova fase e não à toa batizou seu novo álbum com o título de The Emancipation Of Mimi. Como 2006 só está começando, muitas novidades devem surgir pela frente. Entre os vários projetos agendados, um merece destaque: uma parceria com Janet Jackson. “A idéia dessa união ficou na minha cabeça durante meses,” disse Jermaine Dupri, produtor escolhido para coordenar o futuro trabalho. “A parte mais difícil é escolher uma música que se encaixe para as duas, pois são dois estilos bem diferentes e não quero ver duas divas brigando.” Dupri sabe do que está falando. Ele conhece bem o trabalho de ambas — e o temperamento também. Afinal, ele é um dos responsáveis pela produção de The Emancipation Of Mimi ao lado de feras do R&B e do hip hop, como Neptunes e Kanye West.

Além disso, o rapaz é o atual namorado da irmã de Michael Jackson. Portanto, é possível que a união entre as cantoras seja tão vitoriosa quanto “When You Believe,” canção que Mariah registrou, em 1998, ao lado de Whitney Houston para o filme O Príncipe Do Egito. O interessante, porém, é imaginar o que pode nascer desse encontro. Se for levada em conta, por exemplo, a pegada musical de Janet e algumas músicas do último álbum de Mariah — que conta com participações de Snoop Dogg, Nelly e Twista — pode-se esperar um novo hit com muito suíngue e alto nível invadindo as paradas mundiais e colocando todos para dançar. Enquanto o esperado dueto não acontece, Mariah segue colhendo os louros e curtindo a grande fase profissional que atravessa. Ela também deve dedicar mais tempo aos trabalhos humanitários, uma prioridade em sua vida desde o início da carreira, para diversas instituições.

Outro ambicioso projeto da cantora é colocar nas lojas de todo planeta sua própria fragrância. De acordo com a imprensa internacional, o perfume ainda não tem nome definido, mas deve ter sua essência feita a partir de flores brancas. Com isso, Mariah se juntará a um rol de celebridades que já conta com beldades como Britney Spears e Jennifer Lopez. Ainda não se sabe quando o perfume ficará pronto.

Com as questões profissionais tão agicadas, resta uma outra pergunta: como vai o lado sentimental da moça? Bem, parece que ela não deseja se envolver com ninguém no momento. Afinal, seu último namorado, o cantor e astro latino Luís Miguel, mexeu demais com seu coração. Recentemente, ela comentou sobre o sonho de ser mãe. “A pressão de ser meu filho pode ser demais para esse bebê,” explicou. “Não é para menos, não?” Esse é o pensamento da Mariah mulher, que já foi casada a cerca de cinco anos com um homem vinte anos mais velho, o empresário Tommy Mottola, e que, além do latin lover Luís Miguel, namorou o craque do beisebol Derek Jeter, um dos bonitões mais desejados da América. Apesar de aparentemente querer deixar quieto o coração, ela diz como gostaria que fosse seu novo amor: “O homem que ficar comigo tem de ser muito seguro de si e potencialmente um grande pai.”

Como todos os passos e atitudes de Mariah são seguidos atentamente por paparazzi de plantão, um outro pretendente surgiu há pouco tempo como uma possível paixão — é o ator Eddie Murphy. Ambos foram vistos almoçando no restaurante Cha Cha Cha, de Los Angeles, e a notícia de que estariam juntos logo correu as páginas dos principais veículos da imprensa sensacionalista. O certo é que tanto o ator quanto a cantora desmentem o relacionamento. Até seus assessores voltaram a afirmar que ela e Murphy são apenas amigos.

Outros boatos dizem que Mariah teria aceitado o pedido de casamento de Mark Sudack, um dos produtores de seu recente álbum. A desconfiança geral surgiu quando Mariah foi flagrada usando um gigantesco anel de brilhante. Segundo o jornal inglês The Sun, Mariah aceitou o pedido, mas ambos apenas não teriam se pronunciado a respeito. E é dessa forma, esquivando-se das muitas fofocas, que Mariah vai reconstruindo seu castelo, colocando seu lado Cinderela para repousar no passado e deixando uma nova mulher nascer feliz e radiante, como num conto de fadas moderno.